Greve no Cotonifício Crespi (1917)

Crespi logo após a revolução de 24

Cotonifício Crespi (1918)

Uma das primeiras indústrias construída por imigrante italiano no Brasil. Indústria onde trabalharam  José Stávale, José Stávale Junior e Mário Stávale no inicio do século XX.

Cotonifício Crespi bombardeado na revolução de 1924.

Crespi com Extra 2005

Crespi bombardeado em 1924

Crespi 1935

 

 

Cotonifício Crespi, para marcar a história da Mooca

Rodolfo Crespi desembarcou no Brasil com apenas 33 liras no bolso. Construiu um império. O cotonifício da Mooca, por exemplo, chegou a ser a maior indústria da América Latina. Hoje é um supermercado

Por Tim Teixeira

Parece que foi ontem - tão impregnadas estão as lembranças nas paredes do bairro e na memória das pessoas -, mas já lá se vão mais de 100 anos que o imigrante Rodolfo Crespi resolveu erguer o seu sonho, que por algum tempo seria a maior indústria da América Latina. Instalado num prédio monumental de três andares e 48 mil m2, no quadrilátero formado pelas ruas dos Trilhos, Taquari, Javari e Visconde de Laguna, o Cotonifício Crespi marcaria a história da Mooca.

Rodolfo Crespi chegou ao Brasil em 1890, aos 23 anos de idade. Vinha de Busto Arsizio, na Lombardia, uma região com tradição fabril. Natural que começasse por aí. O cotonifício cresceu rápido, chegou trabalhar com seis mil operários. Depois vieram o lanifício, uma fábrica de chapéus, o Hotel Esplanada (que chegou a ser o mais importante de São Paulo) e seus domínios se estenderam ainda por plantações de café, algodão e cereais na região de Araras. Nada desprezível para um jovem que havia desembarcado em Santos com apenas 33 liras no bolso.

O primeiro e único emprego que o jovem Rodolfo encontrou em São Paulo foi na Malharia Regole. Pertencia a Pietro Regole, um italiano de Firenze que havia chegado algum tempo antes. Competente, caiu nas graças do patrão e também da sua filha Marina, com quem se casou logo em seguida. De empregado, passou a sócio. E de sócio, a único dono. Expandiu os negócios e fundou o Cotonifício Crespi, inaugurado em 1897. Importou alguns teares, comprou outros por aqui, deu emprego a muita gente. Até por uma questão de proximidade, o primeiro lugar que os “oriundi” procuravam ao desembarcar na estação da Hospedaria dos Imigrantes era no cotonifício: se houvesse vaga, estavam empregados.

Fotos: Reprodução
O cotonifício do conde Crespi (no alto) parou na greve de 1917. Seus tecidos vestiram tropas paulistas na Revolução de 1932 e as tropas de Mussolini durante a Segunda Guerra
 
 
Alguns moradores se mobilizaram para tentar barrar a demolição do cotonifício, que acabou virando supermercado. Mas, pelo menos, a fachada foi mantida, apesar dos protestos

Equipada com 14 mil fusos e 500 teares, a fábrica tinha fiação, tecelagem, tinturaria e malharia. Consumia 3 mil HPs de energia, complementados pelo consumo de 200 toneladas mensais de óleo em suas caldeiras.

Roupas para Mussolini

Funcionando 24 horas sem parar, a indústria produzia cada vez mais: seus tecidos vestiram as tropas paulistas durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e, depois, as tropas de Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial.

Não quer dizer, porém, que não passou por dificuldades. Além de ser palco das primeiras manifestações operárias do Brasil, em 1917 (veja matéria à parte), esteve na iminência de fechar durante a Revolução de 1924, quando se exigia a renúncia do presidente Arthur Bernardes. A adesão dos tenentes em São Paulo criou um clima insustentável para o governador Carlos Campos, que abandonou o Palácio dos Campos Elíseos. São Paulo foi duramente bombardeada pelas forças federais e o cotonifício, seriamente atingido, precisou paralisar suas atividades. Recuperado, enfrentaria novas dificuldades (estas mais de ordem política) quando o Brasil decidiu entrar na Segunda Guerra Mundial.

Com equipamentos obsoletos, passou a enfrentar dificuldades a partir da década de 50. A situação foi se agravando gradativamente até que veio o pedido de concordata e o fechamento das portas em 1963.

Por um bom período, o prédio monumental permaneceu fechado.

Depois passou a ser locado e sublocado para diversas atividades, que provocaram sua rápida deterioração, assim como dos seus anexos que ocupam todo o quarteirão, com projeto assinado pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Bianchi.

No final de 2003, o Grupo Pão de Açúcar alugou o imóvel para abrir um hipermercado no local - e isso provocou reações contraditórias, pois foi necessário colocar parte da história no chão. “O problema da restauração do Cotonifício Crespi é que se priorizou o seu novo uso em detrimento do seu valor histórico. Esse é o erro mais comum cometido nas restaurações de edificações industriais”, protestou a tecnóloga em construção civil e especialista em patrimônio arquitetônico, Cláudia Yamada, uma das vozes mais atuantes contra o projeto de restauração do cotoníficio.

O supermercado, que investiu 20 milhões de reais nas obras de restauração e construção, alega que o edifício estava condenado. “A restauração foi realizada por uma empresa especializada e manteve as características originais do prédio, recuperando tijolo por tijolo e todos os caixilhos da parte externa da fachada”, diz um material de divulgação da empresa.

“Não considero a obra realizada no Cotonifício Crespi como um restauro, já que não foram respeitadas suas características históricas, estéticas e memoriais. A estrutura foi toda descaracterizada, apenas a fachada foi mantida, boa parte do conjunto industrial foi demolido para ser transformada em estacionamento”, emendou Manoela Rossinetti Rufinoni, arquiteta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Alguns moradores se mobilizaram para tentar barrar a demolição. Mas a própria Cláudia Yamada faz uma ressalva: “Apesar de tudo, dentro do quadro de total abandono do cotonifício, talvez a restauração realizada tenha sido a melhor solução encontrada”.

Durante o período em que perduraram as discussões, o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura de São Paulo e o Ministério Público Federal conseguiram uma liminar para paralisar as obras de restauro. Mas o embargo durou pouco tempo devido ao fato do cotonifício não ser um patrimônio histórico tombado - o processo de tombamento encontra-se em análise há 13 anos no próprio DPH, sem solução. Assim, a obra prosseguiu e, em março de 2005, o hipermercado foi inaugurado.

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